Existe uma saída
Para a antropóloga Letícia Cesarino, a radicalização digital não é um desvio do sistema; é o sistema. E a saída passa por construir outro.
O ensaio abaixo foi construído a partir de uma entrevista imperdível com a antropóloga Letícia Cesarino, que pode ser acessada aqui (em 07/04/2026).
Há uma assimetria estrutural entre direita e esquerda que costuma passar despercebida: ocupar uma posição conservadora é, em certo sentido, mais simples do que formular uma alternativa. Conservar, restaurar ou retroagir não exige a invenção de um mundo novo, basta defender que o mundo existente (ou alguma versão idealizada de seu passado) já dá conta. A esquerda, por definição, precisa propor algo que ainda não existe. Essa diferença não é apenas tática; ela é constitutiva.
Quando o conservadorismo se radicaliza em direção à extrema-direita, algo muda de natureza: a lógica de preservação cede lugar a uma dinâmica orientada pela destruição, uma destruição que pode atingir, inclusive, a própria base social que a sustenta. A política deixa de operar como gestão do existente e passa a ser atravessada por afetos de negação, ressentimento e recusa de mediação. O fascismo, em suas manifestações históricas e contemporâneas, sempre carregou essa orientação: não se limita a exercer domínio, mas incorpora a eliminação (inclusive autodestrutiva) como possibilidade inscrita no próprio movimento. A continuidade da vida social perde centralidade; a destruição passa a funcionar como confirmação de pertencimento, como prova de coerência identitária. Vladimir Safatle explora essas noções aqui.
Para Cesarino, é nesse ponto que o diagnóstico deixa de ser estritamente político e passa a exigir categorias que deem conta da infraestrutura material em que esses processos se desenrolam. A noção de “ecologias da mente”, recuperada por Cesarino a partir da cibernética e da antropologia, oferece uma chave de leitura: a internet e as tecnologias digitais funcionam como extensões materiais da cognição humana e, por isso, o ambiente em que essas extensões operam não é neutro. Ele molda aquilo que pensamos, sentimos e fazemos. Não se trata de uma metáfora vaga sobre “influência das redes”, mas de uma afirmação sobre a arquitetura do ecossistema digital contemporâneo e o tipo de reforço comportamental que essa arquitetura produz.
O feedback que amplifica
A teoria cibernética distingue dois tipos de retroalimentação. O feedback negativo corrige e estabiliza; funciona como um termostato que desliga o aquecedor quando a temperatura atinge o ponto desejado, devolvendo o sistema ao equilíbrio. O feedback positivo faz o oposto: cada ciclo reforça o anterior e acelera o sistema numa direção sem freio interno. O argumento de Cesarino é que a internet, tal como estruturada hoje, opera predominantemente pelo segundo tipo. Comportamentos violentos, odiosos ou radicalizados não apenas encontram espaço online, são premiados por engajamento, circulação e viralização. A arquitetura das plataformas recompensa aquilo que provoca reação, e a agressão, o choque e a polarização estão entre os gatilhos mais eficientes de que se dispõe.
No convívio presencial, há mais feedback negativo (mais freios, mais fricção com a diferença). A vida fora das telas obriga a modular o discurso diante do outro corpo, a engolir certas frustrações, a conviver com quem pensa de outro modo. Online, esses freios se dissolvem. A contrariedade pode ser respondida com brutalidade instantânea e sem consequência aparente. É essa combinação de reforço constante com ausência de contenção que torna a dinâmica digital tão propícia à radicalização.
Além do incentivo, há um segundo mecanismo em curso: a normalização. Ninguém acorda fascista (quer dizer, existem exceções). O deslocamento é gradual, quase imperceptível, e é justamente isso que o torna eficaz: a resistência psicológica a mudanças radicais de comportamento diminui quando essas mudanças se apresentam como uma sequência de pequenos passos. Quando a sociedade percebe a extensão do problema, o processo já se completou e já é tarde demais.
O funil e o canário
O FBI identificou recentemente uma nova categoria de radicalização: o extremismo violento niilista. O dado mais significativo dessa classificação é que ela já não se restringe aos perfis tradicionalmente associados ao extremismo. Meninas mais novas, pessoas mais velhas, camadas demográficas antes aparentemente imunes passaram a integrar esses circuitos. As comunidades online que gravitam em torno de violência e aceleração destrutiva não operam necessariamente a partir de uma ideologia articulada. Operam, muitas vezes, a partir de uma pulsão de destruição e auto aniquilação que dispensa coerência programática. Parte desses sujeitos não quer tomar o poder; quer que o mundo acabe. Organizações obscuras como Order of Nine Angles e Maniacs Murder Cult se encaixam aqui.
A presença crescente de mulheres nesses espaços funciona como diagnóstico. Cesarino mobiliza a metáfora do canário na mina de carvão (mas a metáfora do boiled frog também funcionaria aqui): o pássaro que os mineradores levavam para as minas, por ser mais sensível a gases tóxicos, adoecia ou morria antes dos humanos, funcionando como um alerta precoce de que o ar estava contaminado. Traduzindo, isso significa que quando grupos sociais antes distantes dos circuitos de radicalização começam a ser absorvidos por eles, o que se revela é que a contaminação da atmosfera social já é generalizada. A radicalização misógina e a violência masculina contra mulheres operam nessa chave, ou seja, não como anomalias, mas como indicadores da profundidade do problema.
Fonte: Link
No plano individual, a dinâmica pode ser descrita como um funil. No universo incel e nos ambientes adjacentes, certos indivíduos passam a interpretar fracassos afetivos como destino biológico (associada à comparação com padrões idealizados de masculinidade, como os chamados “Chads”). As tentativas de reverter esse suposto destino (riqueza, status, compensação social) vão fracassando, e a cada fracasso o horizonte dessas pessoas se estreita. O funil avança: menos saídas, menos alternativas pensáveis, até que a autodestruição, quase sempre acompanhada de violência contra outros, pareça ser a única coisa que resta (o reset do sistema).
Comunidades online e algoritmos de recomendação aceleram esse fechamento ao alimentar fantasias inimigas cada vez mais descoladas da realidade. A figura da mulher nesses circuitos é uma caricatura, uma construção que sustenta o ressentimento e confirma a narrativa de vitimização. O mecanismo não é novo; a fabricação do inimigo obedece à mesma lógica que se observa no antissemitismo nazifascista, em que a figura odiada é indispensável para manter a sensação de ameaça permanente (o mecanismo do “bode expiatório”, descrito por René Girard). E quem está dentro do funil não apenas odeia, mas vive com medo. O mundo lhe aparece como algo à beira do colapso, e essa percepção se retroalimenta a cada ciclo de engajamento algorítmico.
As ordens espontâneas e a naturalização da hierarquia
A extrema-direita sustenta essa percepção de mundo se apoiando no que Cesarino chama de “ordens espontâneas”: a ideia de que certas estruturas, como o livre mercado, a biologia e a religião, seriam naturais, auto-organizadas e impermeáveis à intervenção política: a distribuição desigual de riqueza pelo mercado não seria injustiça, mas eficiência; hierarquias de gênero teriam fundamento biológico, não construção social; e se o destino é decidido por Deus, simplesmente não há a quem responsabilizar.
Essas ordens aparecem no espectro da extrema-direita em diferentes combinações: liberalismo econômico radical, leituras biologizantes da sociedade, narrativas religiosas de predestinação. Ainda, compartilham um traço estrutural: ao se apresentarem como dados da natureza, deslocam a responsabilidade para fora do campo político. A lógica é circular: se a desigualdade é natural, contestá-la é inútil; e se contestá-la é inútil, ela se confirma como natural.
Quando essa lógica encontra o funil da radicalização, o efeito é de aceleração. O indivíduo que já interpreta seu fracasso como destino biológico circula em ambientes que confirmam essa interpretação como verdade incontestável. As saídas desaparecem não apenas na prática, mas como categoria do pensamento. A própria ideia de que algo poderia ser diferente perde legitimidade.
A sensibilidade do colapso
Esse mundo vivido como ameaça constante e decadência irremediável favorece o que se pode chamar de sensibilidade aceleracionista. Quando os meios tradicionais de transformação (voto, organização, reforma) parecem insuficientes diante da escala do problema, a resposta se desloca: acelerar o processo, forçar o reset, provocar o colapso para que algo emerja do outro lado. Há nessa disposição um impulso eugênico difuso e um fatalismo que opera como se a seleção já estivesse em curso.
As respostas políticas a essa percepção variam. A centro-esquerda tende a reformar e defender a democracia. A extrema-direita busca ocupar o Estado e corroê-lo por dentro. Mas há um terceiro vetor, que opera em registro distinto: setores neorreacionários, aceleracionistas ou pós-liberais cujo projeto não é salvar a democracia nem destruí-la frontalmente, mas abandoná-la. Enclaves, zonas privadas, seasteading, criptomoedas, infraestruturas próprias, estados-rede e, no limite, fantasias de fuga para Marte. Não são posições políticas no sentido clássico; são estratégias de saída - conceito que acredito que será melhor explorado no novo livro da Naomi Klein e Astra Taylor:
O que sustenta essas estratégias é uma sensibilidade temporal particular. A visão progressista entende o tempo como abertura: o futuro como campo de possibilidades a construir. A visão que alimenta esses movimentos, ao contrário, opera a partir de uma certeza sobre o que está por vir: a segunda vinda de Cristo, o colapso civilizacional, a singularidade tecnológica. Nessa temporalidade, o futuro já age sobre o presente, como se já tivesse acontecido. O conceito de hiperstição tenta capturar isso: ficções que, ao circularem e serem tratadas como verdadeiras, passam a produzir efeitos concretos. O colapso e a distopia funcionam nesses circuitos não como previsões, mas como forças que já organizam condutas no presente.
Trocar de mina
Na leitura de Cesarino, a crítica às plataformas é estrutural. Mas, talvez seja mais preciso dizer que é infraestrutural: o problema não está apenas nas decisões de uma ou outra empresa, mas na lógica competitiva que as atravessa. Adaptando os argumentos de Nick Land, o capitalismo opera como uma força impessoal: se uma plataforma não maximizar o tempo de tela dos seus usuários, outra o fará. O modelo de negócios baseado em retenção de atenção não é uma escolha corporativa isolada; é o resultado de pressões sistêmicas que tornam esse modelo, dentro das regras atuais do jogo, praticamente inevitável. É justamente por isso que a resposta passa também por mudar as condições em que essas plataformas operam.
Diante desse diagnóstico, Cesarino apresenta a soberania digital como eixo central de resposta. O argumento não desconsidera prevenção, educação ou intervenção policial, mas sustenta que nenhuma dessas frentes será suficiente enquanto a infraestrutura digital permanecer como está. A metáfora é direta: não basta tratar o canário, é preciso trocar de mina.
Mas a proposta vai além do diagnóstico. Cesarino sugere que a esquerda deveria aprender algo com a temporalidade da direita (não o conteúdo, mas a forma de se relacionar com o futuro). No caso da soberania digital, isso significaria agir como se o colapso das plataformas já estivesse em curso, preparando alternativas antes que a crise se imponha. Segundo ela, as grandes plataformas não são sustentáveis indefinidamente: disputas geopolíticas, esgotamento de recursos e limites estruturais do próprio modelo apontam nessa direção. Se nada for construído antes de seu enfraquecimento, elas conseguirão apenas se reinventar e manter a hegemonia. Trata-se de usar a hiperstição a favor da construção: organizar-se em torno de um futuro desejado como se ele já estivesse parcialmente em vigor.
Essa transformação não viria de cima para baixo. Cesarino rejeita a revolução estatal como caminho principal e aposta numa construção gradual, autônoma e distribuída, apoiada em práticas já existentes de solidariedade e cooperação. Daí a formulação provocativa de que “o comunismo já está em nós”: não como programa de governo, mas como disposição ética voltada ao comum (uma leitura de “Camarada”, de Jodi Dean, é essencial nesse ponto).
No campo digital, existem alternativas aos serviços centrais como e-mail, armazenamento em nuvem e mensagens. O desafio é político e cultural: viabilizá-las, fortalecê-las, torná-las desejáveis, ainda que a experiência de uso dessas alternativas seja menos polida, menos fluida, menos viciante. Talvez essa fricção seja, ela mesma, parte da resposta: uma interface que não nos prenda por horas pode ser exatamente o tipo de tecnologia de que precisamos. Cory Doctorow descreveu como enshittification (“merdificação“) o processo pelo qual os serviços digitais degradam progressivamente a experiência do usuário em favor de seus próprios interesses. Se algum grau dessa deterioração é inevitável, que ao menos funcione como incentivo à migração.



